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2 de julho de 2010

Revolução

Antigamente eu trabalhava por conta própria. Fazia sapatos. Demorava alguns dias para fazer um par, mas ficava caprichado. Tinha uma clientela considerável, e o que eu lucrava no mês não era muito, mas dava para sustentar minha família. Assim como eu, havia dona Lourdes que costurava de tudo um pouco, fazia roupa como ninguém. Havia também o senhor gaspar, que era mestre em fazer bolsas. E muitos outros que trabalhavam por conta própria. Mas certa vez, chegaram máquinas indústriais em nossa cidade. Estas faziam sapatos, roupas e bolsas, em menos tempo que a gente, e com o preço bem menor. Então, nossa clientela fora caindo e hoje não restara um. Seu gaspar foi despejado de sua casa, pois não havia como pagar, e o proprietário não poderia ficar no prejuízo. Dona Lourdes e seus cinco filhos, passaram fome, de modo que seus filhos deram início a uma prática que até então não era muito comum: assaltos. Faziam isso a fim de conseguir dinheiro para alimentar a mãe e os irmãos. Bom, hoje meus filhos pedem esmola no semáforo próximo onde moramos. Moramos hoje embaixo da ponte, em frente a uma indústria de sapatos. Que ironia.


1 de julho de 2010

Sonhe


Morávamos em Goiás naquela época. Não havia televisão ainda, então só ouviamos falar sobre o mar. Papai dizia que já tinha visto várias vezes, e que um dia me levaria para conhecer. Eu sabia que ele nunca tinha saído de nossa cidade e dificilmente sairíamos, ele nunca teve dinheiro para isso. Mas agradecia o empenho de me tirar um sorriso esperançoso. Ele trabalhava o dia inteiro numa loja de carros. O dono não era brasileiro. Os carros eram caros, e quase ninguém tinha dinheiro para comprar. O patrão do papai, resolveu então levar sua loja automobilística para o Rio de Janeiro. Meu pai estava muito preocupado, não poderia ficar desempregado. Seu patrão vendo que papai era um funcionário esforçado, quase nunca faltava e nem tampouco chegava atrasado, resolveu lhe fazer uma proposta. Convidou-o para continuar trabalhando, dessa vez no Rio. Quando papai chegou em casa, trazia consigo um sorriso de felicidade estampado em seu rosto. E assim fomos. Juntamos as melhores roupas que tínhamos, e partimos em um ônibus amarelo. Eu nunca tinha viajado. Papai me dizia que o Rio era lindo. Que havia mar, o principal. Passei a viajem imaginando como seria a praia. Que cor era o mar. Apesar do esforço, não imagina ao certo como seria. Chegamos.

Ao descer do ônibus, papai me segurou pela mão e disse que me levaria no outro dia, pois tinha
que resolver alguns problemas. Passei a noite em claro, afinal, estava prestes a realizar meu sonho.
Pode parecer bobo, ou pequeno, mas esse era o meu sonho. Acordei papai bem cedo. E assim pegamos a condução: Ipanema. Chegamos lá, papai pediu que eu tirasse os sapatos.
E assim, caminhamos pela primeira vez na areia da praia. O mar ia e voltava. E deixava espumas brancas na areia. Chegamos bem perto. Eu pus meus pés na água. Estava gelada. Um sorriso me saiu quase sem querer. E naquela manhã, realizei meu primeiro sonho.

30 de junho de 2010

31 de abril de 1950


Não posso esquecer daquela noite. Chegamos no restaurante por volta das 19:30. Era um lugar agradável, com mpb como música de fundo. Você estava com um vestido salmão, colado, que esculpia todas as formas do seu corpo. Seu cabelo tinha uma beleza ímpar. Era castanho escuro e um leve cacheado.
Suas mãos delicadas estavam sobre a mesa. Pedimos o jantar. Um vinho do porto para mim, e champanhe para você. O garçom mantinha uma postura ereta diante de nós, segurando as taças.
Por volta das 21:00 horas, decidi fazer o pedido. Você parecia não saber o que iria acontecer. Eu tinha um pouco de receio. Talvez não seria a hora certa. Nós eramos jovens. Mas estávamos muito apaixonados. Tirei do bolso do meu paletó aquela pequena caixa preta que guardava o anel. Era um brilhante que me custara alguns meses do meu salário. Você sorriu meio sem jeito, e fitava atentamente a caixa. Eu tinha planejado várias frases, arquitetado vários modos de lhe fazer esse pedido. Mas a única coisa que saiu foi: Quer casar comigo, meu bem?

Mais uma vez, você

Hoje eu estava caminhando até a parada do ônibus e avistei um gatinho que me parecia familiar. Minha memória logo arremessou a lembrança de um que eu criara em minha infância. Eu tinha mais ou menos sete anos quando recebi uma caixa de sapato do meu avô. Quando abri, era ele. Passei a chamá-lo de Nino. Muitas vezes ele subia em minha cama, mas mamãe sempre disse que é prejudicial a saúde devido aos pêlos. E tirava-o, colocando em uma almofada que servia-lhe de cama. Mas trabalho perdido. Durante a madrugada ele sempre voltava para minha cama. Certo dia senti sua falta, ele não estava em lugar nenhum da casa. Mamãe grita meu nome. Vou seguindo sua voz, chego até a calçada. Quando me deparo com ele embaixo do pneu traseiro de um carro grande. O pêlo dele estava todo vermelho ao invés de branco. Senti um aperto no coração. Quando voltei para o presente, já sabia o que fazer. Não exitei. Desisti de ir aonde eu pretendia. Segurei-o nos braços e notei que seus olhos eram azuis, da cor dos olhos de Nino.
Levei-o até minha casa. Passei a chamá-lo de Gabriel, o anjo.

Coração insano

Anos atrás Roberto e Gabriela se conheceram. Ficaram muito amigos e compartilhavam muitos segredos de suas vidas. Mas Roberto nunca suspeitou que de uma simples amizade, Gabi poderia está apaixonada por ele. Ela se mostrava sempre muito atenciosa, estava sempre atendendo aos seus pedidos. E esse vínculo fora aumentando de uma forma que Gabriela não deixaria Roberto escapar de suas mãos. Ainda mais se fosse por outra garota. Roberto sempre de bem com a vida, nunca deu importância a essa obsessão de sua amiga. Acreditava ele que com o passar do tempo ela ia acabar encontrando um namorado, e ia amenizar esse apego todo. Mas Gabi passou a observar todos os passos dele.

Verificava seu celular diariamente, olhava suas chamadas e mensagens. Sempre fiscalizando para que outra não se aproximasse. Ele nunca deu importância a isso, já estava acostumado. Ela estava sempre mentindo, montando histórias, sempre para beneficiá-la. Os anos se passaram e Roberto conhecera Isabela, uma garota bonita, inteligente e que possuía uma doçura ímpar. Gabriela ao tomar conhecimento desse relacionamento, se assustou, se sentiu trocada. Mas não deixou transparecer o ciúme que sentia. Ele passou a dar menos atenção à Gabi, muitas vezes não pôde sair com ela, pois já tinha combinado algo com Isa. Uma fúria acumulava-se no coração e um ódio no olhar de Gabriela. Ela não admitia ser trocada. Contudo, traçou um plano. Ela iria se aproximar de Isabela. E assim fez. Demonstrou tanta confiança, que Isa passou a contar tudo de
seu relacionamento com Roberto. Talvez por ingenuidade, mas ela tomara algumas decisões sempre com a opinião de Gabi. Sem saber que estava sendo enganada e sendo vítima. Gabriela aproveitou-se, sempre mentindo, inventando saídas inexistentes de Roberto, para despertar ciúme em Isa, a fim de destruir o relacionamento. E na medida que ela fazia isso com Isabela, também fazia com Roberto. Dizia que teria visto sua namorada com outro, para despertar ciúme e causar intriga. Tornou-se uma psicopata. Após inúmeras mentiras, o casal acabou descobrindo a verdade. Ela estava sem saída, fora vítima de suas próprias mentiras. Então, Roberto e Isa decidiram se distanciar. Mas já era tarde demais. Gabi ao perceber o distanciamento do casal, ficou enfurecida e continuou a elaborar planos. Todos falhos. Ela não dormia a várias noites, sempre tramando planos para destruí-los. A psicopata chegou a uma conclusão: teria que matar Isabela. Dirigiu-se até uma favela próxima, e comprou por cem reais um revolver com algumas balas dentro. Estava decidida a realizar o crime. Seria na noite do dia dos namorados, na frente da casa de Isa. Naquela noite Roberto pegara sua namorada para um passeio. Isa se sentia impaciente, mas não sabia o porquê. Roberto pediu para que ela relaxasse, pois estava tudo bem. Gabriela se escondera atrás de uma árvore que havia na rua de Isabela. Ficou esperando ela retornar. Ao voltarem, Roberto se despediu e partiu. Quando Isa estava entrando em sua casa, Gabi surgiu. Ela se assustou, mas a tratou com certo ânimo. Gabriela estava com olheiras, parecia não dormir a dias. Começou a extrair sua raiva. Dizendo-lhe que Roberto seria seu, e de mais ninguém. Isa engoliu a saliva, pediu que fosse embora. E de repente, Gabriela saca a arma de sua bolsa, e quando já ia disparar um tiro em direção à Isabela, Roberto tomou a frente, e recebeu dois tiros. Um no pulmão, e outro no fígado. Gabriela ficou paralisada, perplexa. Não imaginava que Roberto iria voltar. Mas ele teria esquecido algo com Isabela. A namorada diante da cena, ficara muito aflita. E nesse aperreio, seus pais chegam e a levam para dentro de casa. Logo em seguida chamam uma ambulância. Enquanto isso, Gabi foge. Ao chegar no hospital, após a cirurgia, Roberto sobrevive. Apavorada, a assassina se lastima por ter supostamente matado o seu amado. E nesse momento vultos escuros lhe circundaram, e num ato de desespero, introduziu o cano da arma em sua boca, e dispara a última bala. Suicidou-se.
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História dedicada à um amigo querido.

Egoísmo


Outro dia na avenida onde eu passava houve um acidente. Gerou-se um engarrafamento enorme. Eu estava atrasado para uma reunião de negócios. Minha secretária já havia ligado informando que os sócios já haviam chegado. Eu estava muito preocupado, pois não podia perder aquela oportunidade com aqueles sócios. Eles eram americanos, iam me trazer bastante lucro. Eu e os outros carros fazíamos um coro com as buzinas. De longe eu avistava uma pequena luz vermelha, era uma ambulância. Já estava com raiva daquilo tudo, nem queria saber sobre o acidente. Só queria mesmo chegar ao meu escritório. E aos poucos o fluxo de carro ia diminuindo e eu conseguia sair do lugar. Que alívio. Ao chegar em frente ao acidente, percebi que era um carro vermelho que tinha atropelado alguém. Ouvi as pessoas dizendo que a moça que fora atropelada teria morrido na hora. Enquanto eu falava com minha secretária no celular avisando que ia me atrasar alguns minutos, observei com um pouco mais de atenção a vítima do acidente. Era minha esposa.

A era nazista


Eu não entendia muito bem o que se passava naquela época. Só ouvia as pessoas falarem de Comunistas e Hitler. Meus vizinhos eram judeus, assim como nós, e um dia foram levados e nunca mais voltaram. Papai disse que teríamos que fugir. Juntou um pouco de roupa em uma mala marrom , um pouco empoeirada. Mamãe chorava com minha irmã em seus braços. E fomos andando pela rua escura e fria. Eu já estava cansado, meus ombros já tinham acumulado neve. Mas papai dizia que eu tinha que ser forte. Paramos em um local para descansar. Papai me pediu que se algo acontecesse com ele, que eu cuidasse da mamãe e da minha irmãzinha. Eu estava com medo, mas me fiz de forte. Dormimos. Quando acordei, papai tinha sumido. Não sei onde o levaram. Continuamos na caminhada, até chegar a fronteira da Alemanha. Ficamos encurralados por alguns soldados que zombavam de nós. Eles nos levaram para um campo de concentração. Fui para a ala masculina e mamãe e minha irmã para a feminina. Todos os dias algumas pessoas eram levadas para uma tal de câmara de gás. E nunca voltavam. Eu já tinha perdido as esperanças. Quando amanheceu, os soldados alemães me puxavam da cama. Teria chegado o meu dia. Jogaram-me em uma sala fechada, junto com outros judeus. Aquele gás que saía de algum lugar, me deixava sonolento. Ali passei meus últimos instantes de vida.

Um sobrevivente


Aquela repressão me deixava inquieto. Eu queria expor o que eu pensava, alertar aos demais brasileiros o que se passava em nosso país. Conheci algumas pessoas , que assim como eu, também queriam lutar pela liberdade de expressão. Aos poucos, por meio de reuniões secretas, nós iamos tendo algumas idéias. Mas os militares estavam sempre a procura de grupos como o nosso. Numa tarde de outubro, um companheiro nosso fora preso. Até hoje não sabemos o que aconteceu com ele. Mas as histórias que chegavam aos nossos ouvidos eram um tanto assustadoras. Eu tive uma idéia, um pouco infame, mas tive coragem e realizei-a. Subi em um palanque improvisado em uma praça no centro da cidade, e comecei a contar para a população o que se passava em nosso país. Contei sobre as mortes, sobre os companheiros que foram presos e nunca soubemos o que aconteceu. E enquanto eu tentava salvar um pouco de nosso pátria, senti um golpe violento em minha cabeça. Desmaiei. Acordei em um sala sombria e úmida. Eu estava sentado em uma cadeira de ferro pesada, e minhas mãos estavam atadas. Um rapaz alto, com um fardamento militar veio até a mim e disse que eu seria interrogado. Alguns minutos depois chegou o chefe dele. Ele perguntou onde estavam o resto dos meus companheiros. O nome, endereço e familiares. Eu não podia entregá-los. E enquanto eu negava, recebia golpes, murros, chutes por todo o corpo. Eu estava decidido a não contar. Então eles saíram da sala, e me deixaram só. Tive sorte, fui apenas exilado do país. Sofri muito, porém tive a sorte de permanecer vivo, para propagar à todos o que acontecera nessa época em nosso país.

29 de junho de 2010

Final de guerra feliz


Meus pés estavam pesados naquela lama, e minhas costas quase não suportavam mais o peso das armas. Era noite, e o frio nos torturava. Alguns minutos nos eram presenteados para descanço, mas logo eram interrompidos com o estrondo de bombas, e sangue espirrando por todo lado. As trincheiras estavam cada vez mais sujas, devido aos dejetos e aos cadáveres que ali adormeciam. Os dias iam passando e o número de soldados estirados no chão aumentava. Mas eu tinha que continuar lutando pela pátria. Restavam poucos soldados ainda vivos no meu exército. E os adversários se aproximavam. Eu sabia que estávamos perdidos, sem chance. Não tínhamos mais bombas, e as munições estavam acabando. Subi o olhar e vi aqueles tanques enormes se aproximando. Tinha chegado a minha hora. Num ato de desespero, quis me atirar diante daquele tanque de guerra. Mas lembrei dos meus filhos e da minha esposa. Teria que resistir até o último momento, não poderia ceder. E num breve olhar cabisbaixo de despedida, avisto um pequeno buraco na trincheira. Entrei. Os soldados adversários passaram matando todos do meu exército, não sobrara um, exceto eu.

Para sempre


Há muitos dias que venho sonhando com você. Não sei se é um bom sinal, mas estão sendo muito agradáveis, você me trás muita paz. Recordo da imagem de você, sentada em sua cadeira de balanço branca no finalzinho da tarde na calçada. Ainda lembro do rangido que a cadeira fazia a cada balançar. Seus olhos castanhos, olhavam para mim de vez em quando, enquanto eu brincava no chão a alguns metros. Você já tinha o cabelo um pouco branco, mas ainda restava um pouco de castanho, quase da mesma tonalidade do meu. Às vezes o vento soprava, e trazia o seu doce perfume até a mim. Lembro, também, do vestido que você mais usava, aquele cor de vinho com flores róseas. Hoje você está com o cabelo completamente branco, da cor do seu sorriso. E também, hoje você tem um pouco de dificuldade para andar, mas eu vou está sempre aqui, segurando-te pelo braço para que nunca caia. E quando seu momento chegar e a saudade bater, me confortarei, pois eu sei que nos encontraremos lá no céu, minha eterna vovó!